Joseph Campbell, o renomado mitologista, mergulhou nas lendas de Hércules, Aquiles, Ulisses e outras figuras da mitologia grega, introduzindo pela primeira vez “A Jornada do Herói”. A descrição de Campbell sobre essa jornada épica pode ser resumida assim:
Tudo começa com um indivíduo que experimentou uma perda ou sente um vazio em sua vida comum, impulsionando-os a embarcar em uma série de aventuras extraordinárias. Eles buscam recuperar o que foi tirado deles ou encontrar um elixir que reviva a vida. Essa jornada segue um padrão cíclico, envolvendo partida e retorno.
Certamente dezenas de histórias vieram à sua cabeça lendo essa definição, certo? “Matrix”, “Star Wars”, “O Senhor dos Anéis”, enfim, uma série de obras de ficção parecem seguir essas etapas. E como já sabemos, essas estruturas narrativas básicas são a base da produção literária universal.
Embora Campbell tenha detalhado a Jornada do Herói em 17 etapas, o produtor de Hollywood Chris Vogler a resumiu em 12 passos. Essa forma mais sintética é a mais difundida hoje em dia.
O Mundo Comum
O herói é apresentado com sua história pessoal e contexto
O Chamado para a Aventura
Algo muda, levando o herói a considerar uma decisão de vida significativa.
A Recusa do Chamado
O herói hesita devido ao medo do desconhecido, mas eventualmente aceita a aventura.
O Encontro com um Mentor
O herói encontra um mentor, frequentemente um estranho, ancião ou espírito, que oferece orientação e conselhos.
Cruzando o Limiar
O herói se compromete a deixar seu mundo familiar e entra em um novo reino com regras desconhecidas.
Testes, Aliados e Inimigos
O herói enfrenta desafios e faz alianças no mundo desconhecido ou especial.
Preparação
Com seus novos aliados, o herói se prepara para o grande desafio que o aguarda.
Teste supremo
O herói confronta a morte ou seu maior medo, levando a uma mudança transformadora.
A Recompensa
O herói obtém o tesouro buscado, mas há o risco de perdê-lo novamente.
O Retorno
O herói conclui a aventura e deve voltar ao mundo comum, levando o tesouro consigo.
A Ressurreição
À medida que o herói se aproxima de casa, enfrenta outro teste, muitas vezes envolvendo sacrifício e renascimento, preparando-se para liderar em seu retorno.
Retornando com o Elixir
O herói volta para casa, portando um tesouro transformador com o poder de mudar o mundo, refletindo sua própria transformação. É celebrado como líder, inaugurando uma nova e melhorada vida e mundo.
Os pilares da jornada
Depois de algum tempo de contato com a Jornada do Herói, é comum que venham om questionamento: o que faz essa estrutura narrativa criar conexões tão facilmente? Quais elementos tocam a experiência humana de forma tão intensa? Quais princípios estão implícitos nesses passos?
Nas obras de Joseph Campbell, “O Herói de Mil Faces” e “O Poder do Mito”, ele explora a Jornada do Herói a partir de uma perspectiva psicológica, investigando conceitos como rituais de passagem, arquétipos e conflitos internos versus externos.
Rituais de passagem são fundamentais para a Jornada do Herói. Pense nas etapas dessa jornada como momentos de iniciação, transição e transformação. O herói é “chamado para a aventura”, “cruza um limiar” e “retorna com um elixir”. Esses rituais de passagem são paralelos aos eventos significativos em nossas próprias vidas, como formaturas, casamentos, o primeiro emprego e outros marcos importantes.
Campbell também descreve a Jornada do Herói como um rito de passagem prolongado, onde o herói deixa sua zona de conforto, enfrenta desafios no desconhecido e retorna como uma versão transformada de si mesmo.
Essa informação é a parte mais importante, a lição mais valiosa que você pode aprender com a “Jornada do Herói”, e que vai ser o ponto em comum de todos os outros métodos encontrados e difundidos para escrita de ficção. Então, entenda isso e repita como um mantra:
O PERSONAGEM NUNCA PODE ACABAR A HISTÓRIA DA MESMA FORMA QUE COMEÇOU.
Isso, claro, se você quiser entregar uma BOA HISTÓRIA. Nada mais chato e sem sentido do que uma personagem que acaba da mesma forma que iniciou sua trajetória.
De um indivíduo comum a um aventureiro relutante a um herói triunfante. Ou o contrário, se sua vontade relatar o declínio do personagem.
Além disso, existem os arquétipos de personagens. Imagine-os como padrões universais aplicados a indivíduos, não apenas à narrativa como um todo. Carl Jung introduziu os arquétipos como símbolos universais que emergem do inconsciente coletivo da humanidade. Campbell expandiu isso, identificando arquétipos de personagens recorrentes, como o Herói, o Mentor, o Guardião do Limiar e outros.
Por outro lado, Carol Pearson, em seu livro envolvente “O Herói Interior”, sugere que cada pessoa se encaixa em um dos seis arquétipos principais: o Inocente, o Órfão, o Andarilho, o Guerreiro, o Cuidador e o Mago. Note que o arquétipo “O orfão”, não é mencionado em alguns outros textos e referências sobre o tema. Isso ocorre porque esse arquétipo está intimamente ligado ao arquétipo do “Herói”. O orfão carrega a coragem, a determinação e a busca pela superação de desafios, tal qua o herói. E, não por coincidência, é fácil de citar alguns orfãos/heróis nas obras de ficção: Batman, Harry Potter, Cinderella, a lista é longa.
Por fim, a Jornada do Herói enfatiza o conflito interno, não apenas o conflito externo. Os heróis lidam com dúvidas, medos e desafios pessoais. Eles enfrentam sua própria sombra, representando conflitos internos. Conquistar esses medos internos resulta em empoderamento, e quando vemos personagens fazer isso, não podemos deixar de torcer por eles.
Portanto, enquanto o conflito externo impulsiona a trama, os conflitos internos adicionam profundidade às histórias e personagens. Eles os tornam humanos, multidimensionais e, em última análise, triunfantes, refletindo o espírito resiliente que todos nós compartilhamos.