Cenas que não saem da cabeça – The Bear

O luto é o prato principal da série The Bear (2022, direção: Christopher Storer e Joanna Calo produção: Christopher Storer e Joanna Calo) e, como a arte imita a vida, esse não é um prato para ser devorado rapidamente. É provável que você precise de tempo para digerir cada episódio.

O retorno do filho pródigo 

Carmy (Jeremy Allen White), um renomado chef, está trabalhando num grande restaurante em Nova York, quando recebe a notícia que seu irmão se suicidou e é obrigado a regressar à Chicago para administrar o pequeno restaurante da família. 

A cozinha como divã 

A ação se desenrola maioritariamente na cozinha do restaurante da família de Carmy, uma cozinha nada fancy, ao contrário, bem simples e até um pouco caótica, necessitada de reparos como todos os que ali estão.
As personagens discutem sobre a complexidade da vida humana, sobre a ansiedade, sobre a inadequação, sobre a toxicidade, luto e a depressão.

Com uma performance irretocável do ínicio ao fim da temporada, há uma cena no 8º episódio em que Jeremy Allen White se sobressai, o famoso monólogo, preparado para o espectador juntar as peças do puzzle e compreender porque o herói faz tudo o que faz ao longo da jornada, qual a sua verdadeira motivação, o big why.

Confira a cena e veja o texto abaixo:

Meu nome é Carmy. Meu, um… meu irmão é um viciado. Meu, meu irmão era um viciado.
E esta manhã, eu, um… Desculpe, uh… eu esqueci, um… Antes de vir para o Al-Anon, eu era cozinheiro.
Quero dizer, ainda sou um cozinheiro, apenas um tipo diferente de cozinheiro, eu acho.
Eu e meu irmão cozinhamos muito juntos, principalmente quando éramos crianças. Sabe, foi quando estávamos mais próximos. A comida sempre foi nosso terreno comum. Queríamos abrir um restaurante juntos. Hum, nós tínhamos um nome, tínhamos uma vibe, tudo isso. Meu irmão poderia fazer você se sentir confiante em si mesmo. Sabe, tipo, quando eu era criança, se eu estava nervoso, com medo, não queria fazer alguma coisa, ele sempre me dizia para encarar. Você sabe, acabar com isso. Ele sempre dizia, hum… estúpido, ele sempre dizia, hum… “Deixa rolar.” Ele era barulhento. E ele era hilário.

E ele tinha essa habilidade incrível. Ele podia simplesmente entrar em uma sala e medir a temperatura dela instantaneamente. Você sabe, ele poderia apenas, ele poderia discar. E, um… eu não sou assim, cara. Eu, um… eu não tive muitos amigos enquanto crescia. Eu tinha uma gagueira quando era criança. Eu estava com medo de falar metade do tempo. E, uh, eu tirei notas ruins porque não conseguia prestar atenção na escola. Eu não entrei na faculdade. Eu não tinha namoradas. Eu não acho que sou engraçado. Sempre pensei que meu irmão era meu melhor amigo. Tipo, tipo, nós sabíamos tudo um sobre o outro. Exceto… todos pensavam que ele era seu melhor amigo. Você sabe, ele era isso, ele era tão magnético.

E, hum… eu não sabia que meu irmão estava usando drogas. O que isso diz? Conforme ficamos mais velhos, eu percebi que não sabia nada sobre ele… sério. Ele parou de me deixar entrar no restaurante alguns anos atrás. Ele simplesmente me interrompeu. E isso, hum… isso doeu, sabe. E eu acho que isso mexeu com um interruptor em mim, onde eu estava tipo, “Ok, foda-se, veja isso!” E porque tínhamos essa conexão por meio da comida e ele me fazia sentir tão rejeitado, idiota, medroso e sem graça, e-eu fiz esse plano de ir trabalhar nos melhores restaurantes do mundo. Sabe, tipo, tipo, vou trabalhar em cozinhas a sério. Tipo, foda-se a espelunca da mamãe e do papai, certo? E parece ridículo, você sabe, eu dizendo isso agora, mas foi isso que eu fiz. E eu levei uma surra. E separei ervas e descasquei ostras e amêndoas e uni.

E eu me cortei, e fiquei com alho, cebola e pimentão nas unhas e nos olhos, e minha pele estava seca e oleosa ao mesmo tempo. Eu tinha calos nos dedos por causa das facas, e meu estômago estava fodido, e era… tudo. E alguns anos depois, aconteceu uma coisa engraçada que é como… pela primeira vez na minha vida eu comecei a encontrar esta, uh, esta estação para mim. E eu fui rápido. Eu não estava com medo. E estava claro, e eu me senti… me senti bem, sabe. Eu sabia quais vegetais combinavam, proteínas, temperatura, molhos, toda essa merda. E quando alguém novo entrava no restaurante para subir no palco, eu olhava para eles como se fossem concorrentes, como se eu fosse acabar com esse filho da puta. Eu senti que poderia falar através da comida, como se pudesse me comunicar através da criatividade.

E esse tipo de confiança, você sabe, como se eu finalmente… eu fosse… eu era bom em alguma coisa, isso era tão novo, e isso era tão emocionante e eu só queria que ele soubesse disso e, porra, eu só queria que ele dissesse, “Bom trabalho!” E quanto mais ele não respondia, e quanto mais nosso relacionamento… meio tenso, mais fundo eu ia e melhor ficava. E quanto mais pessoas eu eliminava, mais tranquila minha vida ficava. E a rotina da cozinha era tão… consistente e exigente e ocupada e dura e viva, e eu perdi a noção do tempo e ele morreu. E ele me deixou seu restaurante.

E nos últimos dois meses eu tenho tentado consertar porque estava em mau estado, e acho que está muito claro que eu tentando consertar o restaurante… era eu tentando consertar o que estava acontecendo com meu irmão. E não sei, talvez conserte toda a família porque… aquele restaurante, tem e significa muito para as pessoas. Significa muito para mim. Só não sei se alguma vez significou alguma coisa para ele. 


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